quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Helô


Eu já sentia o cheiro de morte de quem eu mais amo. E vi vazar minha mortalidade que escorria com o sangue da minha cabeça. Correria interna; busca das vitórias que havia preterido; desespero.

E você aconteceu.

Desarmou minhas barreiras, sorriu sincero, me fez feliz. Não, eu não esperava por nada, ainda mais por uma mulher que fosse força da natureza, como você. Engraçado te ver acreditando mais em mim do que eu mesma; divertido brincar de existir em tua pele; em tua mente.

Não há o que dizer. Palavras não sentem; não cuidam. Há algo de mágico em tudo o que não se diz. Há contos-de-fada por Alan Moore em nosso romance não-romântico. Só o medo não existe: o mundo nasce e morre todos os dias em nossos dedos. Brincamos de deusas; interpretamos nós mesmas.

E você estava ao meu lado quando meus demônios me abandonaram: ela está bem; eu venci minha guerra. E me ensinou a ter fardo como hobby; a sonhar com as estrelas; esperar e procurar sempre por mais.

Você ajudou o meu sonho se tornar realidade.

E me inspira: de poemas a letras de músicas; de prosa ao canson; de utopia ao sucesso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Lara (ou A Chave na Porta)


Lara tentava se abrir para as palavras que fluíam dentro de si. Era a corrente furiosa de uma cachoeira, algo que lhe feria e curava, ao mesmo tempo. Sentia enjôo de frases que nasciam independentes dela; sentia o corpo usado por fantasmas esquizofrênicos que vomitavam verdades enlouquecidas em sua mente.

As velhas vozes companheiras. Já havia se acostumado com aquela feira livre em sua cabeça. A gritaria já era quase um sussurro. E Lara já entendia que sua sanidade era fruto dos espectros que lhe sopravam ao ouvido. Não importava, aquilo era parte dela, havia a aceitação de tratar o externo como inerente, mas ainda se perturbava com a fúria das palavras que a invadiam. Doía esperar passar o ímpeto louco de pegar lápis e papel, como se a sabedoria fosse escoar de si própria e precisasse registrá-la, para se decifrar depois.

Estava deitada. Nua. A luz da televisão incidindo em sua pele, mas Lara olhava para o rosto adormecido em seu peito. Olhava para aquela mulher repousando a feminilidade em seu corpo. Aquela mulher linda, por quem possuía um afeto que não sabe descrever, vestindo apenas a própria pele, a coberta marcando as curvas de ambas. Então, Lara percebeu a si própria, também, como mulher. Observava a si e à mistura aquarelada das cores das peles que se entrelaçavam.

Lara a afagava os cabelos e olhava seus olhos fechados. Ela adorava aqueles olhos. Sua mulher jazia em sua pele, com suspiros de sono pesado: Tão linda, tão mulher... tão frágil...

E tudo ficou claro. A chave na porta. Lara pôde se abrir ao perceber o porquê de não se entender como mulher. Entendam que ela sabia de sua estrutura física, dos pequenos seios que brotavam por dentro de suas blusas, e dos quadris que desabrochavam por dentro dos jeans. Lara se sabia mulher, mas não se entendia assim. Era a fragilidade. Ela a havia perdido junto com a inocência. E endureceu. Lara acreditara, em um passado não tão recente, que precisava de um homem para lhe proteger. Foi a última vez que se sentiu porcelana, ou argila, e pensou que quebraria. Ela, não só, já não sabia ser frágil, como não o desejava.

Lara queria entender de delicadeza, e, de certa forma, até entendia. A mulher que se entregava a Morfeu em sua pele era a prova disso. Seu dever era preservar o direito das outras serem frágeis. Deveria lhes guardar a inocência que lhes fazia dançar balé enquanto se moviam. E os sorrisos mais leves que plumas.

A chave na porta. Lara chorou e sorriu. Se aconchegou no corpo já adormecido, abandonou as palavras até a manhã seguinte, e foi feliz. Sua dama seria dama e, ela, qualquer coisa que merecesse aquele afeto, de nuvens finas, em um dia ensolarado.

sábado, 11 de junho de 2011

Janaína

Antes de você, sexo era soneto: Rima e métrica desesperada. Teus toques transformaram solidão em esporte; Loucura em prosa poética.

domingo, 15 de maio de 2011

Heloisa


Estrelas conversam comigo. E, em meio às suas palavras de solidão, sonho com o teu corpo aconchegado ao meu. Penso que teu microcosmo expande em mim, fazendo o universo medíocre na grandiosidade do teu ser. Respiro a fumaça do cigarro que queima entre meus dedos, desejando respirar teu cheiro e ter tua pele em minhas mãos.

Travo uma guerra com o relógio, implorando por segundos de paz no teu sorriso. E me ocupo com o que me constitui para não me afogar no que é você no tempo que não te tenho por perto. E sofro sem sofrer. Porque te ter é conforto e casa; é abrigo. E já não sinto o vazio pulsando no meu peito. O que era nada, é poesia.

E me divirto ao perceber que você é mais do que expectativa maquiada que seduz meu ser. E te vejo como algo etéreo, que desperta o melhor em mim. Então, converso com as estrelas e peço para que elas me dêem paciência para agüentar a vida que ainda existe sem teus beijos e o abraço que esconde o calor do sol. 

Mas, o telefone toca, para eu ouvir tua voz. E o mundo acalma. Fecho os olhos e me transporto para o seu lado, enquanto encontro tuas palavras. Sonho sem sonhar. Revivo lembranças. E me pego sorrindo, como louca...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Renata Chiossi (ou Reis dos Santos)

E, foi verdade, mesmo que só por aquele instante, o que eu te disse. O amor me amargara a boca e, ainda agora, não sou forte o suficiente para te proteger. E eu queria um escudo impenetrável e intransponível para te isolar do mundo que nos machuca. 

Eu queria sentir a sua dor.

Eu queria te entregar o mundo numa bandeja para que você o moldasse à sua imagem e semelhança. Porque, no meio da sua perfeição, encontro uma Deusa muito mais benevolente que a de qualquer religião.

Te olhar os olhos é sentir pureza. Tocar sua pele é renascer em uma tortura inimaginável, por não macular seu âmago com as mãos manchadas de pecado.

Eu te quis e desejei, sem saber o que fazer para te ter. Também, nunca soube o que, de mim, deveria esquecer pra te arrancar da alma.  

Sunshine Award

Então, O “Nomes de Mulher” ganhou um selinho fofo, gente!
Quem passou esse award foi a querida Juliet. Então, vamos lá:



“As pessoas visitam vários blogs, mas por alguma razão existem alguns que acabam por tocar o coração de uma forma que outros não tocam, por isso agradeço muito aos blogueiros que visitam, seguem e sempre me dão um Oi ou Olá de vez em quando...Obrigado e conte comigo em mais um ano!

Para todos esses acho que esse selinho será um presente;

O selo e o prêmio servem de reconhecimento e incentivo ao trabalho dos blogueiros espalhados por todo o Brasil, criando uma rede de indicações e blogs.

Quem recebe o selo, deve seguir algumas regrinhas;
Estas visam indicar para Sunshine Award mais alguns blogs para que sejam analisados e possivelmente premiados:

1- Criar um artigo sobre o prêmio;

2- Criar um link do blog que o indicou;

3- Indicar outros 12 blogs para a Sunshine Award;

4- Informar aos indicados sobre o prêmio”.

Eu não estava esperando MESMO. Ainda mais porque deixei o blog abandonadinho, de um tempo pra cá, mas tenho tentado mantê-lo atualizado. Os blogs que eu indico são:



Espero não ter esquecido de ninguém. E, como ainda não linkei ninguém no template, vou esperar comentários com os blogs pessoais de vcs ou indicações, pode ser?

É isso. E um “super-obrigada-pelo-carinho” a todas: pelos comentários, Links, Tweets e indicações. Grande beijo!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ana Carol (ou a carta que não entreguei a você)

Eu deveria aprender a dizer não a você. Eu deveria te deixar em paz, mas não consigo. É só por isso que eu sigo te perseguindo: Porque você se alojou na minha cabeça e, por mais que eu queira te tirar da minha vida, não consigo me libertar.

Quando você surgiu, por dentre as trevas, fez-se a luz. Tudo o que eu queria era saber o porquê; Por que vieste iluminar o meu caminho?

Eu era triste, sem esperanças. Você veio se tornar a minha morte lenta e salvação. Já não importava o quanto doía as minhas falsas esperanças; Meus sonhos mudos. Você sempre soube silenciar minhas entranhas. Desde que você apareceu, jamais voltei a agonizar por dentro.

Foi lindo o dia em que pude alisar-te os cabelos, beijar-te os lábios. A cena se repete na minha cabeça, como num filme de amor: Seu rosto suave, de finos traços...

Mulher, minha amiga, não sabe o medo que me aflige o peito em saber que um dia, talvez, seus olhos castanhos, diamantados, não se cruzem com os meus. Em saber que, talvez, o mesmo medo que eu sinto seja aquele que te atormenta; Que seja ele o assassino da pureza dos meus sentimentos.

Não sei o que, nesses dias, se passa em sua mente; O que acha desta pobre mortal que te escreve com o coração neste pedaço de papel. Não faço idéia dos teus sonhos e do que você vive, então, te peço: Faça valer a preciosidade das suas palavras. Mexa seus lábios e diga algo, mesmo que seja um adeus.

Porque eu preciso saber até onde vai a sua amizade, para controlar esse vício que tenho de me apaixonar por você, a cada vez que me deparo com a sua perfeição.


(16/Junho/04) - Texto escrito, aproximadamente, um ano e meio depois dos acontecimentos narrados aqui.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dois nomes (ou quatro, se preferir)

Sinto-me só
E só sinto o que não existe
Mentiras pulsam no meu peito
Na melodia que ignora a dor
Por ser dor por si só.

Sinto-me só
E só sinto pecados mentais
Vida podre sujando o que é bonito
Pra transformar melancolia
Em substantivos e advérbios
Adjetivos de você.

Depreciando
O que finjo que não sou:
Feridas de um coração
Que dói
Para não morar no silêncio.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carolina

Eu me distraí com o seu rebolado, mulata; E, esqueci das promessas bonitas que fiz para mim. Eu me confundi com o seu sorriso, morena. E me perdi, para encontrar o ébano da tua pele; Os cachos dos teus cabelos.

E me peguei como uma tola, em qualquer canto, rindo à toa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Jennifer Louise (ou o primeiro ato sobre mim)

Tantas doses duplas de veneno
Falta pouco para acabar meu ar
Sinto o relógio correndo ao contrário
E os músculos não saem do lugar...

É língua débil e um sorriso amarronzado
Urina solta e uma falta de mim mesma
Falta saudade e coragem e valor
Falta verdade em atitudes e palavras
E amor.

Não falta mágoa e o que sobra são mentiras
Um barco a vela naufragado no inferno
É um inverno de séculos guardado em semanas
Desilusão sambando louca em minha boca.

É minha vida derretendo nos seus olhos
E minha vida escoando em minhas mãos
Os pés caminham, derrotados, pela lama
Se afundando nessa falta de esperança...

Os braços fracos estão cansados de lutar
Contra essa teia traiçoeira de lembranças
Eu tenho medo de esquecer como esquecer
Estou perdida numa rua de mão única.

Sinto a loucura me empurrando para frente
E a sanidade me pedindo pra voltar
Não há entrada, nem saída, nem minha casa
Me esperando e implorando para entrar.

São só palavras desesperança e tristeza
Me iludindo em pensamentos sem sentido
E eu me giro contra a minha sanidade
Enclausurando ideologia com libido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sem nome vs. 2.0

Navegue em mim que estou perdida. Oscilando nas ondas do oceano. Perdendo o fôlego a cada respiração. Mar morto; Lágrimas vivas em corrente de um rio. Escuridão. Tudo é escuro. As cores se dissipam e me cegam. As cores se misturam para tornar ausência, arco-íris. O negro se torna alegre e volta a enegrecer.
Não há motivação. E palavras voltam a ser só palavras. Vazias, flutuantes, indecisas. Não sei mais o que eu quero e nem se te quero para mim. Vício. Me autodestruo em você e me satisfaço a cada pequena morte de mim mesma. Sepulto ideais; Me afogo em mares de cerveja; Em bares de oceano.
Navego: Insanidade; Prejuízo; Solidão. O mundo me acompanha, mas estou só. Um grão de areia sufocado por bilhões de outros. Não há ar. Vácuo no meu peito. Nada pulsa. Nem o meu desejo inegável por você...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Natasha

Estava cega
Presa na agilidade
Das palavras táteis

Palavras que eu
Teimava em não ouvir

E você apareceu
Em tons de cinza
De leve, suave...

Os olhos vidrados
Nas primeiras formas
Que reconhecia há anos

E rastros de cores
Surgiram
Enquanto nossos corpos
Se misturavam

E não eram apenas cores
Eram luzes
Que valsavam entre nós
Se infiltravam
Em nossas peles

Anoiteci
E o despertar
Me trouxe um universo
Novo
Todas as cores
Do meu mundo
Lindas
E, todas elas, refletiam você.

domingo, 15 de agosto de 2010

Lilian (Capítulo 2)

Então continuou aquela amizade, sabe? A gente se via, batia papo, mas só nos beijávamos meio que escondidas. Lilian tinha medo da reação das pessoas; Eu não, mas não me importava tanto em ser segredo, desde que estivesse com ela.

E teve a chopada do segundo período de 2006. Fui me arrumar no pensionato de Lilian. Foi assustador olhar as Bíblias em cima das camas das meninas que dividiam quarto com ela. E eu nunca fui muito boa dando pala de hétero, mas todo esforço valia a pena. Entramos no banheiro. Dois chuveiros. Uma de frente para a outra. Demorei anos pra desmontar a visão dela, ali, nua, sorrindo, correndo o sabonete pelo corpo. Conversávamos enquanto tomávamos banho. Riamos juntas.

E nos aprontamos. Ela de blusa preta, calça jeans (ou era saia?); Acho que eu também, mas usava uma coroa na cabeça. Achava que ia me dar uma vibe bem Courtney Love, no “Live Through This”.
No caminho, passamos na casa da Mari e no mercado. Como boas bebuns com pouco dinheiro: 51 e refrigerante, antes da cerveja. Paramos na Cantareira pra comer um X-tudo, quando ouvimos um senhor bêbado falar com a gente “Senhoritas, desculpe incomodar, mas vocês podem me arrumar 50 centavos pra eu comprar uma pinga?”. Pedi pra ele arrumar um copo “Te dou da minha pinga, amigo, só porque você foi sincero”. Ele não acreditou muito. Soltou um “Tu não tem pinga...” e eu mostrei a garrafa de 51. Dei um pouco de cachaça pra ele e entramos no campus.

A galera toda lá, esperávamos que fosse divertido, né? A banda que tocava era boa, mas vamos assumir que a versão do “Frente” pra “Love Bizarre Triangle” não é o tipo de música mais animada pra uma chopada, né? Encostaram um carro vermelho que ficou tocando funk. E aí teve aquele momento bem high school em que as meninas dançavam juntas e os meninos do nosso período ficaram em fila, decidindo quem ia chegar em quem. Foi aí que Lilian virou lenda, tirando todas as menininhas do armário.

Eu só não sabia se me focava no coração partido de descobrir, ali, a força da minha paixonite por Lilian, enquanto ela beijava as outras meninas, ou se nas caras de chocados/frustrados dos garotos.

As coisas foram indo, mas não dava mais para ser como antes. Menina homofóbica com medo de pegar o elevador com a gente, a galera dizendo que a gente queria aparecer e eu com um medo absurdo de ver Lilian com outro alguém.

Numa tarde, embaixo do tablado, no bloco “O”. O momento mais brega da minha vida. Acho que um dos mais felizes também. Lembro de voltar pra casa com a sensação de quem é dono do mundo; de quem é rei e pode o que quiser. Eu a abraçava. Ela de pé, eu sentada no tablado. E cantei...

“Why don't you be my girlfriend
I'll treat you good
I know you hear your friends when they say you should
'Cause if you were my girlfriend
I'd be your shining star
The one to show you where you are
Girl you should be my girlfriend…”

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Lilian (Capítulo 1)

Lilian foi um presente inesperado. Um presente filho da puta, daqueles que te alegra, te diverte e te faz sentir estúpida. Aliás, continua sendo.

Com ela, passei as melhores tardes, à beira da baía, olhando o pôr-do-sol, ou seus olhos azuis. Com ela, comecei a ouvir Dresden Dolls, porque ela tem a mesma mania chata que eu, de empurrar seu gosto musical pros amigos, porque é impossível alguém ser tão legal e não curtir as melhores músicas do mundo. Com ela eu aprendi o que é amar, e simplesmente amar, “no matter what”. Com ela percebi que as relações não acabam com um coração partido.

E o meu foi bem partido.

Tudo começou com um livro. 1984 – George Orwell. Ela fez a referência, eu pesquei. Depois disso, a UFF era nossa. Nossos papos, reflexões. Nosso desprezo pelas mentes medíocres disfarçadas em erudição.

E trocávamos textos: Ela e o erotismo; Eu e as letras de música. Comentávamos frase a frase. E eu arrumava desculpas pra chegar em casa 6h depois do que devia. Eram horas mágicas: Segredos, piadas, observações. Tudo era rodeado de uma aura dourada. Pra mim, era descobrir um mundo dentro de um mundo que eu já conhecia.

Era 2006 e nenhuma de nós ainda tinha tatuagem. Acho que ela ouviu falar do Mafueira*, não lembro se postumamente ou não. Ainda não havia Nuvens Negras**. Nada. E a gente só batia papo. Eu tinha um namorado. Ela também. Felipe e Hugo. Eu falava mal do meu, ela falava bem do dela (ou era o contrário?).

E teve um churrasco. Lilian tinha acabado de terminar. Eu também. Mas, antes, prova de História Medieval. Saí da prova, ainda em jejum, procurando bebida. No meio do vinho, da vodca e da cerveja, a encontrei.

E eu peguei a Courtneyzinha*** e pedi silêncio “Pra eu tocar uma música pros seus lindos olhos azuis”.

E eu não me lembro de muita coisa, depois de ter fumado um (foi a minha primeira vez), logo depois disso, mas lembro que ela estava ali, cuidando de mim. Lembro de rolar na grama com o Taiguara e de pegar o Pinga. Lembro de falar pra Flávia jogar água no meu cabelo e de surtar porque “eu não posso ficar feia”.

Mas, eu lembro mesmo foi de Lilian sentando no meu colo, naquelas mesinhas que a obra do campus pôs abaixo, e me beijando, assim, do nada. E eu achava q era sonho, que era viagem. E eu perguntei: “por quê?”. Ela respondeu: “como assim? Você pediu, depois de cantar ‘Miss You Love’ olhando pra mim”.

Fiquei confusa. Jurava que Lilian era hétero.

________________________________________
*Mafueira = A banda que eu tinha até metade de 2006 (nunca chegou a fazer show)
**Nuvens Negras = Última banda que eu tive (fez alguns shows bem bacanas)
***Courtneyzinha = Meu violão de criança.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

(Uma outra) Renata

Ontem, você passou por mim, assim, meio sem querer. Eu curtia um som, dançava “Jet”. O cigarro em uma mão, um copo de margarita na outra. Nossos olhos se cruzaram enquanto o grito dominava o espaço da festa: “I Said, are u gonna be my girl?”.

Amigos em comum, danças com trocas de sorrisos e olhares. E eu entretida em sua aura de mulher mais velha, ciente do mundo e de sua própria feminilidade. Sua maquiagem forte contrastava com o alvo da sua pele, destacava traços incrivelmente lindos. Deixava o seu sorriso e olhar ainda mais sacanas. E eu estava fascinada por algo em você que berrava sexo. Algo que me atirava a você em um impulso inevitável.

Conversamos. Trocamos provocações. Cada milímetro de pele respondia ao que, até então, eram apenas palavras. A cabeça navegava em desejo; Procurava descobrir seu gosto, seu cheiro, sua textura. Desvendar suas curvas. E eu me esforçava para não fechar os olhos e viajar nas loucuras da minha mente. Era como se o seu olhar já fosse sexo, lambuzando o meu corpo em tesão descontrolado. Sentia algo pulsando levemente, entre as minhas pernas. Tentava disfarçar a necessidade que o meu corpo tinha pelos seus toques.

E a festa acabou. Saímos juntas do lugar. E você me chamou pra dormir em sua casa. Não havia espaço para não em minha boca. Eu era aceitação. Recepção. Receberia e doaria tudo. Trocaria ingenuidade ou malícia. A escolha era sua. Eu seria o que você quisesse que eu fosse.

Quando deitamos, você sussurrou algo que eu não entendi. O seu sorriso denunciou o intuito dessas palavras. E eu te beijei. Com a necessidade de quem tenta salvar a própria existência em um beijo; Com as mãos nervosas que derrapavam em suas curvas. E tudo era mescla de loucura e impulsos: “necessidade e vontade; necessidade e desejo”.

Você tirou a minha blusa, arranhou minha cintura, mordia e beijava os meus seios. E eu explorando o seu corpo ainda vestido, tentando controlar a explosão que se instaurara entre as minhas pernas.

E eu fui te despindo aos poucos. E fui delirando a cada pedaço de pele que brotava por além de suas roupas. Lindos sinais negros pelo seu corpo. E língua e mordidas percorrendo cada milímetro de você. E eu te via se entregando, jogando o rosto e o pescoço para trás; Gemendo como quem lê poesia, como quem canta uma canção.

E você se atirou em mim. E resolveu também me percorrer com a língua. Boca e mãos maravilhosas, que me transformaram em uma espécie de Deusa por algumas horas. Seios, barriga, virilha. Bunda. Tudo que era meu te pertencia. E você se embrenhando no meu corpo como quem quer fazer um ninho. Voracidade, loucura anormal. Você lambia a minha concavidade enquanto eu gemia loucamente, esperando os seus dedos dentro do meu corpo. E você me fez implorar por eles; Contorcida, desesperada, enlouquecida. Curtindo a tequila dos meus drinks em seus toques, em sua língua. Foi eu sentir o seu primeiro dedo explorar os espaços do meu corpo pra eu sentir que aquela noite duraria um infinito.

E lá estava você, me penetrando com fúria, jogando o meu corpo para dúzia de posições diferentes; Brincando com os meus orgasmos; Gemendo ao sentir meu corpo pulsar nos seus dedos. E eu cavalgava em você; Quicava nos seus dedos. E mordia o seu pescoço, me afundava nos seus seios, precisava de tudo. Meu corpo já não sabia ser só meu. Era uma extensão das delícias que você me proporcionava.

Era demais pra mim. Não dava pra passar mais um segundo sem sentir o gosto das suas entranhas. E retomei a busca de minha língua por toda a pele do seu corpo. Tantas sensações, tanta luxúria. Mergulhei em você com o desejo de morar ali. De sentir aquele gosto para sempre. Você gemia e seus gemidos só me faziam procurar por mais. Eu também queria tudo de você.

E os meus dedos foram tomando vida própria. Um, dois, três. E você linda, jogada na cama, mordendo os lábios. Uma boneca de pano erótica. E eu morando nos teus seios, penetrando os meus dedos em estocadas violentas. Apertando a sua bunda.

E você linda, perfeita. Mulher. E eu mudando ritmo e posições pra te aproveitar melhor. Girando os meus dedos, de leve, dentro de você. E me mantive te explorando feito louca, até você desabar em exaustão orgástica no meu seio. Eu só não podia parar de te beijar. E assim, fomos, percorrendo o início da manhã na nudez uma da outra. E só paramos quando já não existia mais força para continuar.

Eu acordei sem saber quem era. Onde estava. As dores do meu corpo me apontaram pra você, que dormia do meu lado. Fiquei deitada, observando os detalhes da sua pele. E levantei, me arrumei e saí. Sem adeus, sem bilhete, sem nada. Carregando, apenas, as dores de uma noite de prazer. E o seu nome, que lateja, quase como um gemido, em minha mente: Renata.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sem nome

Tonturas de sono sem sono. Da falta de sono das curvas contorcidas no contorno do teu corpo que não vem mais consolar minhas noites solitárias

Então minhas mãos percorrem minha pele. Buscando espaços. Buscando o tato que se perdeu no seu último toque. E me vejo molhada na ausência de você. Procurando reencontrar a calma que perdi na falta do seu amor, do seu afeto. E me aparece linda, embrulhada em véu. Abençoando solenemente os meus pesadelos eróticos.

Lembro da sua textura, teu cheiro, teu gosto. Como se tudo em você já fosse parte de mim.

E eu procuro abrigo na ponta dos dedos, que rompem e rasgam a divindade líquida das entranhas das mais belas musas; Na saliva que passa a caminhar da minha língua para os detalhes íntimos de quem não significa nada.

Mas eu só lembro dos teus olhos e sorriso. Dos teus lábios, mesmo os tendo deixado pra trás, há tantos anos. Tento descobrir teu tato no meu corpo, nas minhas noites de desamor.

Busco as tuas curvas nos meus dentes, teu mamilo em minha boca.

Sugar, derreter, esquecer. Cansei de ser o seu pecado. A marca de sangue no teu peito que você teima em querer apagar. O rastro de mágoa na sua alma. Então mergulho na falta de pudores, na minha mácula eterna de algo que pulsa além de mim.

No meu tesão inesgotável que contorce as minhas entranhas; Que me faz sobreviver apesar dessa tristeza que me acompanha a cada dia. Todo o dia. Todos os dias.

O meu impulso me converte em suor e saliva; Beijos e toques. Mãos que deslizam além dos corpos: Procurando, buscando... Por dentro. Tentando encontrar uma alma que me esqueça você. Caçando um amor. Algo além da minha luxúria; Tentando tocar um coração com a ponta dos dedos, mas o que pulsa neles nunca passa de pecado. O pecado de ser você, e só você, quem dispara no meu peito.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Louise

Eu te peço perdão. Peço perdão por não ter sabido ser o que você merece, o que você precisa. Me condeno por não ter me apaixonado e por ter me deixado levar por tudo de bom que sempre fluiu de você pra mim; Por ter acreditado que bastaria você pra cicatrizar feridas abertas. Fui eu. Minha falta, minha dor, meu peso nas costas.

Eu peço desculpas por ter te tocado; Por ter te olhado pela primeira vez. Por ter passado as impurezas do meu passado pra você; Por te ter feito menos digna e mais vil; Por ter te feito agüentar o peso das lágrimas no rosto, quando não pude sustentar mais o teu sorriso. Eu pensei que, por você, valia arriscar tudo. Todas as dores e corações partidos. Pensei que, por você, eu construiria uma nova história, um novo caminho. Que eu encontraria a luz. Que voltaria a saber sentir.

E dói como o inferno saber que falhei com você e que falhei comigo mesma. Uma dor que me rasga a alma. Uma dor que aumenta quando os amigos perguntam por você; Quando digo que não há mais um “nós” e eles me carregam pra fogueira dos meus crimes. Porque eu me sinto queimar por dentro, em culpa, por ter acreditado que poderíamos ser o que não fomos; Por ter te dado esperanças; Por ter me deixado crescer por dentro de você.

Não, eu não estou feliz. Eu não consigo estar feliz pensando no que pude ter te causado.

Então eu penso em um Deus que eu não sei se existe. E eu peço a Ele que cuide de você, que te dê conforto, felicidade, amor. Um amor mais intenso que o brilho das estrelas; Um amor infinito. O amor que eu nunca soube ser pra você; Que eu não pude te dar.

Essas são as palavras que nunca soube como te entregar. Estas são as palavras que espero que não cheguem a você. Não espero o teu perdão pra aliviar as dores dos meus atos; Dos meus pecados. Não espero nada de você, assim como, eu não deveria der esperado de mim, em primeiro lugar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Thaís - Capítulo 4 (Final)

Me isolei. O mundo, as pessoas, nada mais existia, só eu e a minha tristeza éramos reais. Eu acabava de ter me descoberto apaixonada por uma menina. Linda, perfeita, homofóbica. Eu não tinha medo de gostar de uma mulher em si, mas não podia permitir que ela reparasse o meu interesse e desaparecesse. Não. Era dor demais para encarar...

Então eu me fechei dentro de mim mesma. Textos nos cadernos, Death Metal no diskman. Ou Power Pop. Ou Grunge. Não importa. Vivia um caso de amor com a minha melancolia. O caso que eu deveria ter com Thaís.

E ela continuava caminhando numa corda bamba. Os passos firmes e lascivos. Não havia medo de cair. Ela me atraía como o chão atrai o suicida à beira do abismo. E eu não sabia se pulava. A adrenalina da queda livre de alguns milhares de metros para o clímax orgástico da queda. A morte. O corpo desfeito em pedaços, em mancha, em nada.
Eu não sabia que não tinha escolha. Eu não sabia que já estava caindo.

E eu me afastei do mundo, mas não pude deixá-la sozinha. Ainda mais quando soube que, a maior parte das meninas da escola já tinham se articulado para surrar Thaís. Desistiram por minha causa. Não sei como ou quando isso aconteceu, mas elas gostavam de mim. Sabiam que eu estaria ao lado dela para apanhar ou bater. Não importa. Eu era o seu escudo e ela, o verme que me comia por dentro; O vírus que derrubava as minhas defesas.

Então surgiram pessoas entre nós. Duas, três, quatro meninas. E quanto mais elas se aproximavam, mais ela se afastava. E doía a vê-la ir embora. Escoar, lentamente, como areia, por entre os dedos. Mas eu tinha que deixá-la ir. Era uma necessidade física. Não havia mais como sofrer por ela. Não havia como doer mais do que doía.

Incorporação. A cerimônia que nos dava as boas vindas à vida de normalistas Fumávamos na fila. Não haviam palavras. Era como se nossas presenças fossem o suficiente. Consolo, estímulo. Adeus. Em algum momento ela me disse algo sobre eu ter que escolher. Ou todos os amigos que tinha, ou ela. Ela me queria só pra si. Inteira, como antes. Não pude aceitar. Não poderia passar por tudo aquilo outra vez.

E ela se foi. Tive a sensação de vê-la chorando, mas não sei se era a minha lágrima que me fazia ver o mundo molhado.

E ela nunca mais atendeu as minhas ligações. E ela não me olhava mais os olhos. E ela pediu para mudar de turma. E fez outra amiga. Pouco mais de um mês depois, saiu da escola. Um dia, eu descia as escadas para o pátio e encontrei com a tal amiga. Raquel. Ela me parou e me entregou um cordão. Eu conhecia bem aquele pingente, havia dado para Thaís, logo quando a gente se conheceu. Ela me viu usando e pediu. E eu não sabia dizer não para si. Ela nunca havia tirado o cordão, desde então.

“A Thaís pediu pra te devolver”
“Onde ela está?, Ela tá bem?”
“Vai ficar. Está melhorando!”
“Pede pra ela atender quando eu ligar pra ela? Queria falar algumas coisas com ela.”
“Cara, fica longe da Thaís. Você não acha que já fez mal demais pra ela não?”
“Hã?”
“Ela se apaixonou por você e você virou as costas pra ela. Não, ela não precisa de mais isso na vida. Some, esquece. Tanto ela, quanto a mim. Se eu souber que você a ligou outra vez, você está fodida na minha mão. Não vai sobrar nada de você.”

Ela virou as costas e foi embora. Fiquei parada. A boca aberta, o coração disparado. O pingente caiu no chão, eu não peguei. Fui embora. Foi a última vez que ouvi falar de Thaís.

sábado, 3 de julho de 2010

Thaís - Capítulo 3

Não nos falamos naquele dia. Ela tentou. Eu não encontrei palavras para responder. Só ficamos paradas, na quadra, enquanto os meninos jogavam bola. Cigarros entre os dedos. Silêncio desconcertante.

Em casa, minha cabeça revivia aquela cena. A traição do que não era meu, mas deveria. Era eu a confidente, era eu a amiga. Em mim, ela confiava. Comigo, ela podia ser quem era. Sem tipo, sem máscaras. Sem aquela beleza mágica que transformava todo o resto em esboço. Rascunho do que, um dia, poderia vir a ser belo. Ele era a silhueta, mas não só ele. Quantos mais?

No dia seguinte, era como se nada tivesse acontecido. A encontrei com o noivo, na porta da escola. Ela nos apresentou. Agora ele era real. Tudo o que eu invejava, sem saber porque, estava alí. Parado à minha frente. “Toma conta dela pra mim, hein?”, ele disse. “Sempre!”. A resposta saltou da minha boca, enquanto virava as costas para atravessar a rua e entrar no colégio. Tudo pra não presenciar a despedida dela. O beijo que devia ser meu. Segundos depois, ela me seguiu correndo. Caminhamos lado a lado. Sorrimos. Fomos para a aula.

O pior de conhecer Thaís foi não saber o que acontecia comigo. O que me fazia pensar que ela era minha e só minha? Afinal, não é normal que as meninas tenham namorados?

Ela me falou sobre o Rodrigo, o rapaz negro, do dia anterior. Disse que tinha que ser segredo, por causa do noivo e que era só sexo; Que ela não resistia a um negro, com a pele mais lisa, menos pêlos, o pau maior e mais grosso. Disse que não ia acontecer mais. Não quando eu fosse à aula. Assumiu que a escola era um inferno sem mim e que ela precisava de algo que amenisasse a dor da minha ausência. Não disse nada, apenas sorri.

Os dias fluiam como as águas de um rio, fortes, constantes, sempre na mesma direção. Ela era a minha pequena obcessão, meu motivo de dormir e acordar. E, fora da escola, passava as minhas tardes no telefone, com ela, ou dormindo. Era só. Em sonho, ela estava comigo e, perdida em sono, as horas passavam mais rápido.

Era uma manhã de sexta feira, quando aconteceu. Foi ver Thaís se aproximar que o meu coração disparou. Nervoso, alucinado, em transe. As pupilas dilataram. Um calor adormeceu cada parte do meu corpo. Ela me abraçou e sentiu todo o pulsar no meu peito. Parou.

“Você tá bem?”
“To, por quê?”
“Seu coração...”
“Acho que era saudade. Ficou assim quando eu te vi”
“Não fala assim. Parece uma sapatão. Eu não posso ser amiga de uma sapatão”.

Dei um passo pra trás. Era isso? Era isso que eu era o tempo todo sem saber? Improvável, impossível. Foi quando reparei que fazia meses que não beijava ninguém, que não me interessava por ninguém. Thaís era o meu mundo. O meu pequeno faz-de-conta em que eu me escondi. E eu só não sabia como sair desta teia de mentiras e ilusões que eu havia criado. Estava afundada nisso. Ela era o meu tudo, o meu nada. O meu qualquer coisa. Mas algo era claro: Era hora de deixá-la ir.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Thaís - Capítulo 2

Passaram duas semanas desde que vi Thaís pela primeira vez. Era hora de agir. Causar a aproximação que me levaria mais próxima do que eu ainda não sabia. Passei por ela, mais de metro de cachos escondendo a minha vergonha de seguir em frente. E aquele andar gingado, de malandro que não tem medo de nada. A batida de “Everything ends”, no disk man, me dava a confiança que eu precisava. Parei. Estava de frente para ela, que fumava um free, com o olhar blasé no corredor do terceiro andar. Olhei como quem desafia. Como quem chama pra briga. Como quem não precisa da existência do outro. Pedi um trago. Ela tragou e jogou a fumaça pelo meu ombro esquerdo. Disse que não. Que eu não fumava, mas acabou cedendo depois de qualquer argumento irrelevante.

Ela pegou o maço no bolso da blusa e me estendeu um cigarro e o isqueiro. Ela tinha razão, eu não fumava, mas, enquanto nossos cigarros estivessem acesos, eu teria uma desculpa pra ficar ali. Ela falou algo sobre como se fumava, mas eu não consegui ouvir. Segurava o cigarro com o polegar e o indicador. Segurei o cigarro assim por mais de um ano, na realidade. Nos apresentamos ali e, sem perceber, nos tornamos uma dupla. Ela me sorriu. Foi a primeira vez que a vi sorrir naquelas duas semanas. Depois disso, não precisamos falar mais nada. Estava selado. Éramos companheiras. E terrivelmente diferentes. A patricinha puta e a roqueira magrela. Não havia como fugir. Era o que todos viam quando olhavam pra nós. Inclusive os nossos próprios olhos nos percebiam assim.

E eu me transformei numa sombra de Thaís, uma aprendiz de como se tornar mulher. Depilação, lápis de olho, calcinha sexy. Até o meu andar começou a mudar. Cigarros e aquela expressão de “não me importo com você”.

E o meu sonho de olhos abertos voltando, cada vez com mais detalhes. Agora, já podia sentir a textura da sua pele, seu cheiro, tudo, enquanto ela rasgava as entranhas no sexo pulsante da silhueta, Enquanto violava uma inocência que deveria existir, mas não estava ali.

Então, já éramos confidentes. Thaís sempre falava de sexo. Do seu noivo de trinta e poucos anos que a levava e buscava na escola todos os dias. Das escatologias sexuais que eles resolviam na cama, ou no banheiro, ou no banco de trás do Gol vermelho dele. Eu sentia cada palavra e escrevia sobre elas, como um diário de perversões que me ensinaria o que fazer quando a minha vez chegasse.

Ela me descrevia as paredes dos motéis, e as sensações que tinha quando se sentia penetrada. Assumiu que não conseguia lidar com o sexo, estando sóbria, quando reparei que ela cheirava, com certa freqüência, no banheiro feminino. E disse que começou a fumar mais para não deixar seu vício tão evidente. O cigarro reduzia as sensações desagradáveis do seu nariz. Eu deveria ter me preservado e deixado Thaís, mas já era tarde. Estava envolvida demais pra distinguir o certo do errado. A razão da emoção.

Eu havia faltado à aula por dois dias. Cheguei para o segundo tempo, numa quarta-feira. Literatura. Subi as escadas em busca da falta de fôlego que ela me proporcionava. Ela estava lá, no pedaço do corredor que já era nosso, porque ninguém passava por ali, nem mesmo os inspetores. Ela e um rapaz que eu não sabia o nome, misturados como se fossem um só. O negro da pele dele complementando as curvas brancas de Thaís. Formando um Yin-yang de luxúria e carne pulsante. De suor.

Ela me viu parada assistido ao seu próprio deleite e me viu partir. Não, Ela não se importava. Ela não disse palavra. Ignorou meu trauma. Não me seguiu pra longe dali.