sábado, 3 de julho de 2010

Thaís - Capítulo 3

Não nos falamos naquele dia. Ela tentou. Eu não encontrei palavras para responder. Só ficamos paradas, na quadra, enquanto os meninos jogavam bola. Cigarros entre os dedos. Silêncio desconcertante.

Em casa, minha cabeça revivia aquela cena. A traição do que não era meu, mas deveria. Era eu a confidente, era eu a amiga. Em mim, ela confiava. Comigo, ela podia ser quem era. Sem tipo, sem máscaras. Sem aquela beleza mágica que transformava todo o resto em esboço. Rascunho do que, um dia, poderia vir a ser belo. Ele era a silhueta, mas não só ele. Quantos mais?

No dia seguinte, era como se nada tivesse acontecido. A encontrei com o noivo, na porta da escola. Ela nos apresentou. Agora ele era real. Tudo o que eu invejava, sem saber porque, estava alí. Parado à minha frente. “Toma conta dela pra mim, hein?”, ele disse. “Sempre!”. A resposta saltou da minha boca, enquanto virava as costas para atravessar a rua e entrar no colégio. Tudo pra não presenciar a despedida dela. O beijo que devia ser meu. Segundos depois, ela me seguiu correndo. Caminhamos lado a lado. Sorrimos. Fomos para a aula.

O pior de conhecer Thaís foi não saber o que acontecia comigo. O que me fazia pensar que ela era minha e só minha? Afinal, não é normal que as meninas tenham namorados?

Ela me falou sobre o Rodrigo, o rapaz negro, do dia anterior. Disse que tinha que ser segredo, por causa do noivo e que era só sexo; Que ela não resistia a um negro, com a pele mais lisa, menos pêlos, o pau maior e mais grosso. Disse que não ia acontecer mais. Não quando eu fosse à aula. Assumiu que a escola era um inferno sem mim e que ela precisava de algo que amenisasse a dor da minha ausência. Não disse nada, apenas sorri.

Os dias fluiam como as águas de um rio, fortes, constantes, sempre na mesma direção. Ela era a minha pequena obcessão, meu motivo de dormir e acordar. E, fora da escola, passava as minhas tardes no telefone, com ela, ou dormindo. Era só. Em sonho, ela estava comigo e, perdida em sono, as horas passavam mais rápido.

Era uma manhã de sexta feira, quando aconteceu. Foi ver Thaís se aproximar que o meu coração disparou. Nervoso, alucinado, em transe. As pupilas dilataram. Um calor adormeceu cada parte do meu corpo. Ela me abraçou e sentiu todo o pulsar no meu peito. Parou.

“Você tá bem?”
“To, por quê?”
“Seu coração...”
“Acho que era saudade. Ficou assim quando eu te vi”
“Não fala assim. Parece uma sapatão. Eu não posso ser amiga de uma sapatão”.

Dei um passo pra trás. Era isso? Era isso que eu era o tempo todo sem saber? Improvável, impossível. Foi quando reparei que fazia meses que não beijava ninguém, que não me interessava por ninguém. Thaís era o meu mundo. O meu pequeno faz-de-conta em que eu me escondi. E eu só não sabia como sair desta teia de mentiras e ilusões que eu havia criado. Estava afundada nisso. Ela era o meu tudo, o meu nada. O meu qualquer coisa. Mas algo era claro: Era hora de deixá-la ir.

5 comentários:

  1. Por que ela não pode ter uma amiga sapatão? Oh, por quê?

    Estou bem curioso. u_u

    Continua incrível.

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  2. esse texto esta muito ungido :D

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  3. se existe uma palavra pra definir Thaís é essa: Ungida!

    Quase uma Cleycianne; Não é oca, nem lésbica masculina.

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  4. Eu também não posso ter amigas sapatões, afinal elas podem dar em cima da minha namorada.

    e tenho dito.

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