segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ana Carol (ou a carta que não entreguei a você)

Eu deveria aprender a dizer não a você. Eu deveria te deixar em paz, mas não consigo. É só por isso que eu sigo te perseguindo: Porque você se alojou na minha cabeça e, por mais que eu queira te tirar da minha vida, não consigo me libertar.

Quando você surgiu, por dentre as trevas, fez-se a luz. Tudo o que eu queria era saber o porquê; Por que vieste iluminar o meu caminho?

Eu era triste, sem esperanças. Você veio se tornar a minha morte lenta e salvação. Já não importava o quanto doía as minhas falsas esperanças; Meus sonhos mudos. Você sempre soube silenciar minhas entranhas. Desde que você apareceu, jamais voltei a agonizar por dentro.

Foi lindo o dia em que pude alisar-te os cabelos, beijar-te os lábios. A cena se repete na minha cabeça, como num filme de amor: Seu rosto suave, de finos traços...

Mulher, minha amiga, não sabe o medo que me aflige o peito em saber que um dia, talvez, seus olhos castanhos, diamantados, não se cruzem com os meus. Em saber que, talvez, o mesmo medo que eu sinto seja aquele que te atormenta; Que seja ele o assassino da pureza dos meus sentimentos.

Não sei o que, nesses dias, se passa em sua mente; O que acha desta pobre mortal que te escreve com o coração neste pedaço de papel. Não faço idéia dos teus sonhos e do que você vive, então, te peço: Faça valer a preciosidade das suas palavras. Mexa seus lábios e diga algo, mesmo que seja um adeus.

Porque eu preciso saber até onde vai a sua amizade, para controlar esse vício que tenho de me apaixonar por você, a cada vez que me deparo com a sua perfeição.


(16/Junho/04) - Texto escrito, aproximadamente, um ano e meio depois dos acontecimentos narrados aqui.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dois nomes (ou quatro, se preferir)

Sinto-me só
E só sinto o que não existe
Mentiras pulsam no meu peito
Na melodia que ignora a dor
Por ser dor por si só.

Sinto-me só
E só sinto pecados mentais
Vida podre sujando o que é bonito
Pra transformar melancolia
Em substantivos e advérbios
Adjetivos de você.

Depreciando
O que finjo que não sou:
Feridas de um coração
Que dói
Para não morar no silêncio.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carolina

Eu me distraí com o seu rebolado, mulata; E, esqueci das promessas bonitas que fiz para mim. Eu me confundi com o seu sorriso, morena. E me perdi, para encontrar o ébano da tua pele; Os cachos dos teus cabelos.

E me peguei como uma tola, em qualquer canto, rindo à toa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Jennifer Louise (ou o primeiro ato sobre mim)

Tantas doses duplas de veneno
Falta pouco para acabar meu ar
Sinto o relógio correndo ao contrário
E os músculos não saem do lugar...

É língua débil e um sorriso amarronzado
Urina solta e uma falta de mim mesma
Falta saudade e coragem e valor
Falta verdade em atitudes e palavras
E amor.

Não falta mágoa e o que sobra são mentiras
Um barco a vela naufragado no inferno
É um inverno de séculos guardado em semanas
Desilusão sambando louca em minha boca.

É minha vida derretendo nos seus olhos
E minha vida escoando em minhas mãos
Os pés caminham, derrotados, pela lama
Se afundando nessa falta de esperança...

Os braços fracos estão cansados de lutar
Contra essa teia traiçoeira de lembranças
Eu tenho medo de esquecer como esquecer
Estou perdida numa rua de mão única.

Sinto a loucura me empurrando para frente
E a sanidade me pedindo pra voltar
Não há entrada, nem saída, nem minha casa
Me esperando e implorando para entrar.

São só palavras desesperança e tristeza
Me iludindo em pensamentos sem sentido
E eu me giro contra a minha sanidade
Enclausurando ideologia com libido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sem nome vs. 2.0

Navegue em mim que estou perdida. Oscilando nas ondas do oceano. Perdendo o fôlego a cada respiração. Mar morto; Lágrimas vivas em corrente de um rio. Escuridão. Tudo é escuro. As cores se dissipam e me cegam. As cores se misturam para tornar ausência, arco-íris. O negro se torna alegre e volta a enegrecer.
Não há motivação. E palavras voltam a ser só palavras. Vazias, flutuantes, indecisas. Não sei mais o que eu quero e nem se te quero para mim. Vício. Me autodestruo em você e me satisfaço a cada pequena morte de mim mesma. Sepulto ideais; Me afogo em mares de cerveja; Em bares de oceano.
Navego: Insanidade; Prejuízo; Solidão. O mundo me acompanha, mas estou só. Um grão de areia sufocado por bilhões de outros. Não há ar. Vácuo no meu peito. Nada pulsa. Nem o meu desejo inegável por você...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Natasha

Estava cega
Presa na agilidade
Das palavras táteis

Palavras que eu
Teimava em não ouvir

E você apareceu
Em tons de cinza
De leve, suave...

Os olhos vidrados
Nas primeiras formas
Que reconhecia há anos

E rastros de cores
Surgiram
Enquanto nossos corpos
Se misturavam

E não eram apenas cores
Eram luzes
Que valsavam entre nós
Se infiltravam
Em nossas peles

Anoiteci
E o despertar
Me trouxe um universo
Novo
Todas as cores
Do meu mundo
Lindas
E, todas elas, refletiam você.

domingo, 15 de agosto de 2010

Lilian (Capítulo 2)

Então continuou aquela amizade, sabe? A gente se via, batia papo, mas só nos beijávamos meio que escondidas. Lilian tinha medo da reação das pessoas; Eu não, mas não me importava tanto em ser segredo, desde que estivesse com ela.

E teve a chopada do segundo período de 2006. Fui me arrumar no pensionato de Lilian. Foi assustador olhar as Bíblias em cima das camas das meninas que dividiam quarto com ela. E eu nunca fui muito boa dando pala de hétero, mas todo esforço valia a pena. Entramos no banheiro. Dois chuveiros. Uma de frente para a outra. Demorei anos pra desmontar a visão dela, ali, nua, sorrindo, correndo o sabonete pelo corpo. Conversávamos enquanto tomávamos banho. Riamos juntas.

E nos aprontamos. Ela de blusa preta, calça jeans (ou era saia?); Acho que eu também, mas usava uma coroa na cabeça. Achava que ia me dar uma vibe bem Courtney Love, no “Live Through This”.
No caminho, passamos na casa da Mari e no mercado. Como boas bebuns com pouco dinheiro: 51 e refrigerante, antes da cerveja. Paramos na Cantareira pra comer um X-tudo, quando ouvimos um senhor bêbado falar com a gente “Senhoritas, desculpe incomodar, mas vocês podem me arrumar 50 centavos pra eu comprar uma pinga?”. Pedi pra ele arrumar um copo “Te dou da minha pinga, amigo, só porque você foi sincero”. Ele não acreditou muito. Soltou um “Tu não tem pinga...” e eu mostrei a garrafa de 51. Dei um pouco de cachaça pra ele e entramos no campus.

A galera toda lá, esperávamos que fosse divertido, né? A banda que tocava era boa, mas vamos assumir que a versão do “Frente” pra “Love Bizarre Triangle” não é o tipo de música mais animada pra uma chopada, né? Encostaram um carro vermelho que ficou tocando funk. E aí teve aquele momento bem high school em que as meninas dançavam juntas e os meninos do nosso período ficaram em fila, decidindo quem ia chegar em quem. Foi aí que Lilian virou lenda, tirando todas as menininhas do armário.

Eu só não sabia se me focava no coração partido de descobrir, ali, a força da minha paixonite por Lilian, enquanto ela beijava as outras meninas, ou se nas caras de chocados/frustrados dos garotos.

As coisas foram indo, mas não dava mais para ser como antes. Menina homofóbica com medo de pegar o elevador com a gente, a galera dizendo que a gente queria aparecer e eu com um medo absurdo de ver Lilian com outro alguém.

Numa tarde, embaixo do tablado, no bloco “O”. O momento mais brega da minha vida. Acho que um dos mais felizes também. Lembro de voltar pra casa com a sensação de quem é dono do mundo; de quem é rei e pode o que quiser. Eu a abraçava. Ela de pé, eu sentada no tablado. E cantei...

“Why don't you be my girlfriend
I'll treat you good
I know you hear your friends when they say you should
'Cause if you were my girlfriend
I'd be your shining star
The one to show you where you are
Girl you should be my girlfriend…”